Marcela Dias
Recife, Pernambuco | 1998
Em sua pintura, Marcela Dias desdobra exercícios pictóricos que investigam o momento de nascimento da forma. Ao tratar a superfície da tela como um campo de experimentação formal e material, a pintora incorpora recuos, ‘pentimentos’ e sinaliza as suas decisões com franqueza. Assim, a constante busca pelo momento de constituição formal agita a superfície da tela em uma vasta soma de gestos subtrativos e aditivos de camadas de tinta: marcas de raspagem, empastamentos irregulares e zonas onde a tinta parece ter sido movida lentamente, quase como uma sedimentação.
A poética da pintora nasce de seu interesse em elaborar a linguagem pictórica como um processo contínuo, a partir de seus materiais e procedimentos, bem como da percepção da pintura como busca contínua, afastando-se da ideia de projeto e de ilustração. É como se cada uma de suas telas cristalizasse um momento pictórico inserido em um processo de pesquisa alargado. A artista une sua prática em pintura à poesia, sugerida pelos títulos de seus trabalhos. São frases de natureza imagética que capturam o movimento plástico da tinta sobre a tela, elaboradas posteriormente ao trabalho pictórico. Os títulos também evocam elementos da imaginação da pintora que sinalizam uma elaboração poética sobre seu próprio trabalho.
Em suas telas mais recentes, as figuras resultam do encontro da forma com a cor. São elementos anulares que podem nos remeter a figuras líticas, nuviosas ou lacustres, mas que não chegam a configurar uma paisagem ou referenciar o mundo natural. São composições instáveis que mantêm uma espécie de mobilidade interna, como se cada plano ainda estivesse em negociação com os demais, seja por meio da cor, da sobreposição de formas ou da rasura. As formas e as relações entre os planos ganham contornos circulares sem qualquer fusão, mas em constante circularidade.
Marcela Dias é formada em Artes Visuais pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e mestre em Artes Visuais pelo PPGAV na mesma instituição. Dentre suas exposições coletivas mais importantes, somam-se: Toda vez que eu dou um passo o Mundo sai do lugar, Galeria Janete Costa – Parque Dona Lindu, Recife, 2026; Dois passos para trás, Museu Murillo La Greca, Recife, 2024; Pedacinhos Island, Fundo Nacional de Artes (FUNARTE), São Paulo e Noite Fria Fora de Época, Quadra Galeria, Rio de Janeiro, ambas em 2023. A pintora também já realizou individuais em diferentes espaços, dentre eles: UMBO, Claraboia, São Paulo, 2026; Longe, enfim, Garrido galeria, Recife, 2025 e Desertos e Esconderijos, Acervo Diária, São Paulo, 2024. Sua obra faz parte do acervo do Banco do Nordeste, Recife.