Arte em revista: o artista como crítico de arte
Curadoria: Daniel Donato

“A modernidade é sinônimo de crítica e se identifica com a mudança; não é afirmação de um princípio intemporal, mas o desdobrar da razão que, sem cessar, se interroga, se examina, se destrói para renascer novamente. Não somos regidos pelo princípio da identidade nem por suas enormes e monótonas tautologias, mas pela alteridade e a contradição, a crítica em suas vertiginosas manifestações.”
Octavio Paz, Os filhos do barro: do romantismo à vanguarda. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. p. 47.
Se a atividade crítica é, no campo da filosofia como da arte, um dos pilares que definem a modernidade, suas manifestações são, por sua vez, insuspeitas. No campo da crítica de arte, a letra é plástica e a atividade reflexionante que a define é suscetível a formas textuais tão distintas quanto manifestos, depoimentos, tratados, entrevistas e colunas de jornais. Além de um certo conjunto de temas e debates próprios à região (como a relação tensa entre o local e o global), uma das particularidades da crítica de arte moderna feita em Pernambuco durante o século XX foi o protagonismo dos artistas como principais agentes dessa atividade. Tratam-se de artistas de diferentes gerações que se engajaram na atuação crítica dos trabalhos de seus colegas ou de seus mentores. Por essa razão, o esboço dessa história exige um mapeamento textual mais amplo do qual esta exposição se vale ao referenciar diferentes formas de manifestações críticas dos artistas.
Um pressuposto para que esse debate pudesse ser constituído é, em algum nível, mesmo que titubeante, a constituição de uma esfera pública. Além de conversas de ateliê, esses manifestos críticos circularam em diversos veículos de imprensa ao longo das décadas, muitos deles editados pelos próprios artistas. Seja pela Academia de Belas Artes, em nível mais restritivo, ou seja pelas agremiações artísticas independentes, como a Sociedade de Arte Moderna do Recife, o Atelier Coletivo ou, mais tarde, pelo Movimento de Cultura Popular e o Atelier + 10, dentre muitos outros. Sem a imposição das disciplinas e com mais abertura para artistas de diferentes origens sociais, sobretudo nos três últimos casos, essas organizações permitiram aos artistas a produção de salões e o debate crítico em torno de suas produções. Foram elas que aliaram o engajamento reflexivo que levou à frente a produção artística lado a lado com a crítica de arte cá e alhures.
Vicente do Rego Monteiro, por exemplo, foi editor — ao lado de Edgar Fernandes — da revista Renovação, cujo texto que aparece em seu primeiro volume, datado de 1939, consta nesta mostra. Em “O eterno em arte”, o artista manifestou seu interesse pelo intemporal da produção artística, entendida como necessidade vital e veículo de valores morais. Por isso, não haveria razão de se estabelecer distinções entre arte “moderna” ou “primitiva”, visto que ambas compartilham uma fonte em comum. Tendo em mente este pressuposto, o artista lança uma dupla crítica à produção que lhe foi contemporânea: i. ao academicismo naturalista que se desprende dos valores essenciais da arte ao tornar o pintor um análogo da câmara escura; ii. às iniciativas de mercado que estabelecem autoria como único critério de valor para o trabalho artístico. Trata-se de uma crítica alinhada com os valores ufanistas e cristãos do Estado Novo, algo anti-moderno que persiste em sua atitude crítica de defesa das vanguardas, em certa medida, tal como aclimatadas pelos pintores locais. Fato curioso é que sua natureza-morta, presente na exposição e datada já da década de 1960, Rego Monteiro faz do jornal um elemento da composição. Tanto nesta quanto em outras de suas composições, a imprensa é um elemento recorrente em suas naturezas-mortas que reporta à sua atuação como tipógrafo.
Já em 1961, José Cláudio apresenta uma crítica ferrenha, veiculada no Diário da Noite, ao seu colega do Atelier Coletivo, Wellington Virgolino. Acusando-o de repetir ad nauseam uma mesma fórmula pictórica, José Cláudio, de quebra, faz um balanço crítico de sua geração e dos ícones eleitos por ela, quais sejam: os autores ligados ao realismo social folclórico que deveriam combater o abstracionismo. Em seu texto, a analogia com a câmara escura também é citada: “Mas isso durou somente enquanto nos empenhávamos em fazer uma mão parecida com uma mão, e nos admirávamos de poder materializar o que estava escondido para os outros e guardado em nossa retina, como quem guarda uma fotografia que tem para bater. Aos poucos, porém, nos cansamos de contar casos, de usar nossos quadros para narrar de tarde o que tínhamos visto de manhã.” Virgolino, ao passo que escapa à regra da tematização regionalista de sua geração, se fixa em uma figuração de vocabulário gasto e da forte influência que o pintor recebe das más reproduções de obras estrangeiras veiculadas pela imprensa como causa de seu estanque e reducionista vocabulário formal. Virgolino, em depoimento, por sua vez, ecoa a crítica de José Cláudio, ao afirmar que se força à repetição.
São apenas dois exemplos dos sete textos que organizam a exposição em sete conjuntos de trabalhos artísticos. Sem pretensão de apresentar uma reconstituição da história da crítica de arte pernambucana feita pelos artistas, esta exposição busca apresentar ao público lampejos de escritos de diferentes décadas e debates que se desdobraram ao longo do século XX. Com isso, pretendemos lançar ao olhar do espectador um duplo desafio: por um lado, ver os trabalhos artísticos pela mediação textual e de questões críticas de outrora; por outro, tornar contemporânea a atividade reflexionante que se encontra presente tanto nos textos, quanto nas obras. É justamente no limiar entre texto, contexto, intertexto e a possibilidade de significação intrínseca à criação artística que a mostra visa tensionar o olhar do público. A ideia de revista é, portanto, dupla: primeiro como uma revisão dessas camadas de trabalho da obra que se faz no decorrer da história com o estabelecimento de seus públicos e críticos, segundo como veículo que pressupõe uma esfera pública como condição de existência do debate.
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Exposição: “Arte em revista: o artista como crítico de arte”
28/06 até 01/08/2025
Galeria Marco Zero – Av. Domingos Ferreira, 3393, Boa Viagem, Recife
Visitação de segunda a sexta-feira, das 10h às 19h; sábado, das 10h às 17h
Entrada franca