Bozó Bacamarte: sobressalto e estripulia
Curadoria: Guilherme Moraes

Nas suas telas, Bozó Bacamarte (Recife – PE, 1988) cria um mundo fantástico combinando inquietação e meticulosidade a um repertório iconográfico que envolve o circo, a xilogravura popular nordestina, o terreiro de jurema do qual é frequentador… Mas extrapola-o quando constrói suas engenhocas pictóricas. Nelas, personagens improváveis povoam paisagens agrestes tomadas por gravatás, cactos
e árvores de tronquinhos retorcidos, todos cobertos por céus límpidos em radiantes azuis ou a anoitecerem em misteriosos violetas.
A ética contida na obra de Bozó está no seu caráter leve e enigmático. Essa rara mistura é atestada a cada quadro: quadrúpedes se beijam ou estão à mesa desfrutando, com canudo, alguma bebida engarrafada. Serpentes listradas portam bengalas enquanto equilibram garrafas sobre suas cabeças vestidas de chapéus. São nessas invenções que o artista nos presenteia com o riso. Mas as gracetas aqui e ali são entrecortadas por elementos taciturnos. Pedras pretas povoam arquiteturas impossíveis, com portais a fatiarem o espaço-tempo. Um ser de quatro olhos e presas pontiagudas está de braços abertos. Ele veste capa vermelha e roupa branca, decorada com o Sol e a Lua. Aqui, Bozó nos entrega algo inquietante. Há uma vivência mística inscrita nessas cenas justapostas.
Para reunir vários episódios na mesma cena, o artista adota em suas acrílicas sobre tela uma planaridade à maneira das xilogravuras de cordel: o que aparece acima sugere o que estaria ao fundo. Esta, por sua vez, descende da literatura de folhetos portuguesa, herança da gravura medieval popular, referência para a produção dos retábulos do holandês Hieronymus Bosch (1450–1516). O pintor que habitou entre o gótico tardio e a primeira renascença foi o primeiro a transplantar as drôleries medievais, passagens insólitas e jocosas nas margens das iluminuras de pergaminhos, para o centro da pintura, apinhando criaturas híbridas e animais antropomorfizados em simultaneidade, e transformando os pecados e os delírios do homem em verdadeiros sermões visuais. As microcenas do bestiário de Bozó são próximas a Bosch, contudo há entre elas uma diferença importante: sua produção não é didática nem moralizante, não corresponde a um entendimento binário de céu e inferno, não é um pesadelo a nos assombrar com sua eminência. Seus quadros nos apresentam um mundo burlesco e folião.
Para encarar a fauna fabulosa de Bozó Bacamarte, vale entender que palhaços, equilibristas e dançarinos o fascinam e informam suas figuras bufantes que tantas vezes parecem estar no ápice de uma pose de breakdance; que sua pincelada cita a talha, a falha e o sutil desalinho das cores carimbadas, características próprias da gravura em madeira; que certos trejeitos e vestes de seus seres vêm da convivência com exus, pombas-giras, mestres, mestras, caboclos e outras entidades na Casa das Matas dos Reis Malunguinho. É importante saber disso, não para tentar fazê-la caber em interpretações apressadas, mas para vislumbrar sua vastidão. Melhor encarar suas pinturas com o mesmo espanto de quando nos percebemos dentro de um sonho.
E se passarmos pelas cabrinhas a carregarem escadas, arrodearmos as figas fincadas no chão, cumprimentarmos cautelosamente os homens com cabeça de fogo e subirmos pelos degraus rosa e azuis até nos defrontarmos com um portal misterioso no meio da floresta? Bozó Bacamarte nos apresenta um universo feérico, feito de sobressaltos e estripulias, e que nos diz, festejando: o mistério habita aqui.
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Exposição: “Bozó Bacamarte: sobressalto e estripulia”
07/08 até 25/09/2025
Galeria Marco Zero – Av. Domingos Ferreira, 3393, Boa Viagem, Recife
Visitação de segunda a sexta-feira, das 10h às 19h; sábado, das 10h às 17h
Entrada franca