Dura Naturalia – José Rufino
Curadoria de Daniel Donato

Galeria Marco Zero celebra a obra de José Rufino com a exposição “Dura Naturalia”
José Rufino trabalha a memória e a história não como conceitos estáticos, mas como forças que, em relação com a natureza, são capazes de constantemente reorganizar sensibilidades e olhares. Ao longo de quatro décadas de produção, o artista paraibano tem empreendido experimentações que vão além dos materiais e dos suportes, cascavilhando as poéticas que nascem dos encontros entre o que está vivo e aquilo que se fixou no tempo. Sua vasta obra, incluindo peças inéditas, é revisitada em Dura Naturalia, exposição antológica com curadoria de Daniel Donato que a Galeria Marco Zero abre ao público no dia 30 de abril, às 18h.
Dura Naturalia nasce do desejo do artista paraibano de confrontar obras antigas e novas, possibilitando que, segundo ele, cada uma pudesse operar em um sistema de contaminação e incorporação. Em exibição na mostra, estão trabalhos em esculturas, pinturas, desenhos e instalações, criados desde a década de 1980 até produções inéditas. Para Rufino, as obras antigas emergem para uma nova vida e as novas dialogam com a enteléquia, força que faz emergir o que estava latente, das que estavam adormecidas.

“São mais de 40 anos de produção artística e cerca de 350 participações em exposições. No entanto, a experiência é curiosa como o ato de se encarar um gaveteiro antigo, cheio de possibilidades poéticas e conceituais, mas assombroso. Eu prefiro assim: enfio a mão nas gavetas da criação sem medo de encontrar o documento inviolável ou a lâmina enferrujada. Não sou artista de técnica aprimorada, de fórmula replicável, de obra encomendada. Em cada trabalho, enveredo pelo risco, por aquilo que se transmuta, que vaga entre as matérias mortas e vivas, entre consciência, erro e espanto. Sou um mero regente de criaturas, que vão e voltam, ora como gavetas, cartas, ferramentas, cordas, cadeiras, escrivaninhas, raízes ou manchas”, reflete o artista.
O título da exposição faz referência a Parva Naturalia, de Aristóteles, pensador que José Rufino tem, como explica, usado com certa transgressão ao longo dos anos. A obra do filósofo grego reúne tratados sobre os pequenos processos da vida, como memória, sono, sensação e Rufino, em seu trabalho, busca subvertê-los.
“Não me interessa o que está vivo, mas a permanência inscrita na matéria. Interessa-me que as obras exibam suas escrituras autônomas, não como suportes, mas como aquilo que retém e continua a se transmutar nas relações entre si e com aqueles que delas se aproximam. Minhas obras não são discursos, são entidades operantes”, enfatiza.
A relação do artista com a natureza é outro eixo fundamental da sua obra. Segundo Rufino, ele foi um naturalista precoce, o que o levou à formação em Geologia e Paleontologia. Suas primeiras curiosidades e obsessões, foram voltadas para os processos da natureza, como a formação dos minerais e rochas, pela evolução da vida e seus registros fósseis, pelo comportamento dos animais e das plantas. Para ele, “a ideia de escavação, de descoberta e revelação, virou um mecanismo vital.”

A exposição é dividida em três núcleos nos quais são agrupados trabalhos que partem de objetos em que se sedimentam camadas de história e sentidos a partir das quais o gesto artístico assume a tarefa de ficcionalizar ao trazê-los para o presente. Exemplo disso é a série Cartas de Areia, o trabalho mais antigo da mostra, no qual Rufino trabalha a partir do arquivo privado de cartas do avô, escritas entre 1920 e 1950, além de notas fiscais, bilhetes, livros e cartas, sobre os quais o artista inscreve desenhos e pinturas nos quais proliferam símbolos de árvores genealógicas, desenhos do engenho, cenas de sexo e autorretratos em silhuetas fantasmagóricas.
Nos trabalhos da série Purgatio, José Rufino investiga a relação entre história e natureza a partir dos paradoxos da modernidade, com quadros que, segundo o curador Daniel Donato, “parecem buscar as marcas da interioridade humana em uma mesma realidade caracterizada pela falta de qualquer pessoalidade.” Entre os trabalhos inéditos estão produções realizadas neste ano de 2026, além de pinturas da série Phantasmagoria, produzidas durante a pandemia. Outro destaque da exposição são a obra Spectrum, elaborada por José Rufino a partir de recortes de jornais da época em que Andy Warhol viveu em Pittsburgh, nos EUA, cedidos ao brasileiro pelo irmão do artista, John Warhola. Na produção, Rufino fez intervenções em pintura a partir da sua pesquisa com o teste de Rorschach. Anteriormente, o trabalho foi apresentado em 2010 no Museu Andy Warhol, em Pittsburgh.
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Dura Naturalia – José Rufino
De 30/04/2026 a 19/05/2026
Galeria Marco Zero – Av. Domingos Ferreira, 3393, Boa Viagem, Recife
Visitação de segunda a sexta-feira, das 10h às 19h; sábado, das 10h às 17h
Entrada franca