Nas restingas, onde sonha o coração – Rayana Rayo

Curadoria: Galciani Neves

18 pinturas e um tanto de papéis desenhados integram a primeira exposição individual de Rayana Viana, na Galeria Marco Zero. Alinhavam essa mostra os respingos e estouros do cotidiano, a matéria onírica que a artista mistura à memória dos acontecimentos e as hipérboles imagéticas, táteis, sonoras… flagradas por ela. Diante dessa reunião de trabalhos, podemos pensar que seu procedimento primordial parece mesmo ser a fabulação, que envolve uma transformação do vivido, que, por sua vez, acolhe a textura do tempo.Tais processos ocorrem em uma artesania manual muito singular: para lidar e digerir toda essa matéria sensível em arte, a artista pinta seres, mesclas metamorfoseadas entre bichos e plantas, que habitam paisagens imaginárias.

Em suas telas e desenhos, Rayo nos coloca diante de seus personagens como se esses nos chamassem a habitar o mundo de outras maneiras. Formas que sugerem maciez, cores que primam pelo contraste entre figura e fundo, contornos que avivam anatomias inventadas são criadas por um picel rápido e livre, quase selvagem, e, ao mesmo tempo, que prima pela preciosidade dos detalhes, dos acabamentos, dos mínimos embricamentos que se ajuntam para compor um corpo. A pintura de Rayo tem uma textura de muitas cores, como se o tom viesse sendo construído lá do fundo para habitar a superfície da tela. Seu gesto vai criando complexidade nos limites entre os componentes da cena. Mirando os seres de Rayo, podemos nos demorar em uma espécie de enigma do olhar: entre reconhecer na natureza alguns elementos e nos questionarmos sobre como viveria aquele bicho-planta. Assim são também suas paisagens: entre a composição de cena surreal (ou mais que real, ou distópica, como se estivessem num mundo sem seres humanos) e elementos fisgados do cotidiano.

A fabulação de Rayo não se dá na substituição da verdadeira realidade pelo ficcional impossível. A artista não se interessa por essa distinção. Rayana conta histórias em suas pinturas e desenhos. E faz isso em um continuum da vida. Ou vice-versa: a vida é como lhe parece, porque é a arte que a acompanha. O que poderíamos chamar de simbólico, imaginário, fastástico não se opõe ao que reduzimos como real, sensível, ao que nos invade cotidianamente. 

A questão em Rayo é exatamente a ausência de fronteiras que diferenciem essas “categorias” de percepção. E essa dissolução de contornos se dá por meio de gestos de passear entre esses territórios com a mesma intensidade, de beber de suas fontes com igual vontade e voracidade e de compreender que a vida que não se vale da junção dessas forças não se dá a conhecer. Com suas obras, percebemos que uma pretensa verdade que não tem poros para se deixar atravessar pelas metáforas não é suficiente para dar conta do que é viver. Ou como diz o poeta: “A arte existe porque a vida não basta” (Ferreira Gullar). Ao que outro artista viria rivalizar: “A arte é o que torna a vida mais interessante que a arte” (Robert Filliou). 

Seu criar é atravessado por incontáveis acontecimentos e temporalidades e estes figuram também nos títulos dos trabalhos: “Ótimas condições”, “Ilha desconhecida”, “A noite tá que é um dia”. Rayo vai fazendo anotações às margens das telas e estas se modificam ao longo do processo de pintura. São como roteiros para guiá-las nas imagens, na construção dos personagens e em como as paisagens vão se relacionar com seus componentes. Não se tratam de cenários que vão sendo povoados. Mas sim da criação de uma espécie de micro-mundo que tem clima, temperatura, topografia e modos de fazer a vida acontecer muito próprios. E por essas características serem únicas, talvez seja um tanto difícil de afirmar quem surgiu primeiro: a paisagem ou seus habitantes. Ou seja: o lugar propiciou o nascimento dos seres ou os seres construíram o lugar?

Enquanto pinta, Rayo vai elaborando convivências entre personagens, lugares, acontecimentos e expandindo-os até que toquem seu modo de estar e de se reconhecer como artista, mulher e mãe no mundo. A coisa toda também funciona no sentido inverso, pintar, para Rayo, é um decantar/recriar a vida em capítulos densos de cor. Tempo, lugares e histórias autoficcionais que se passam nessas dimensões são circundados pelo sustento da vida, pelo cuidado com quem está por perto, pela cooperação e pela reciprocidade de criar e ser criada. Rayo vai fisgando as filigranas e os avessos que a vida cria no corpo e, na arte, encontra território para celebrar os encantamentos com o passar dos dias, com o acúmulo de experiência, com o fato de viver algo e poder compartilhar. A pintura é seu rito de passagem, um registro diário compromentido com uma espécie de exaltação do simples fato de estar viva (o que não é nada simples no mundo atual). A pintura é igualmente sua ferramenta do cotidiano, tão importante quanto encarar a sobrecarga do mundo.

Pois bem, e se estamos aqui, cambaleantes e entregues aos dias, aos dissabores desse tempo de violências, onde temos que respirar todo dia, sonhar é como um polém, imaginar outros mundos possíveis-fabulosos é o gesto mais subversivo para lidar com os infortúnios e as catástrofes. Sem isso, sucumbimos. Se conseguíssemos, apreender esta lição é um dos caminhos que os trabalhos de Rayo nos convidam a trilhar. Pensamento que encontra eco nos ensinamentos de François Cheng (escritor, poeta e calígrafo chinês): “falar da beleza poderá parecer absurdo, inconveniente, até provocativo. Quase um escândalo. Mas por isso mesmo que, em oposição ao mal, a beleza se situa no outro extremo de uma realidade que precisamos enfrentar. (…) temos como tarefa urgente e permanente contemplar esses dois mistérios que constituem as extremidades do universo vivo: de um lado, o mal; do outro a beleza”.

Para o título dessa mostra, as restingas pernambucanas surgiram como possibilidade para adentrarmos o território poético da artista. Esses ecossistemas costeiros, de grande importância para o equilíbrio ambiental, são arenosos e salgados, beiram o mar, e, por isso, são muito influenciados pela maritimidade – oscilação das marés, umidade, fluxo das aves migratórias e animais marítimos. As restingas são assim esse campo imaginário e exuberante, onde o coração pode ousar, desamarrar-se e sonhar. Afinal, com que parte do corpo sonhamos quando estamos diante do mar?

Galciani Neves