O céu não cabe em nenhum paraíso – Ramonn Vieitez

Curadoria Yuri Quevedo

O céu não sabia meu nome, 2026

Marco Zero apresenta “O céu não cabe em nenhum paraíso”, de Ramonn Vieitez, com curadoria de Yuri Quevedo

Nas paisagens de Ramonn Vieitez, uma atmosfera apocalíptica se constrói não só como ideia de finitude, mas também de recomeço. Nesse ciclo em que esplendor e caos estão enredados, a pintura do artista pernambucano prefere apontar caminhos a compreendê-los. Esse universo imagético ganha destaque em O céu não cabe em nenhum paraíso, individual que o artista abre no dia 06 de agosto, às 19h, na Galeria Marco Zero. Com curadoria de Yuri Quevedo, a mostra evidencia a pesquisa em torno
do gesto, da luz e da matéria que guia o seu trabalho recente.

Com cerca de 30 obras inéditas, a individual registra o aprofundamento da investigação pictórica de Vieitez ao longo dos últimos anos. Para o artista, as paisagens funcionam como um universo imagético e simbólico no qual as explosões abrem espaço para o surgimento do novo — do mistério, afinal. Suas pinturas são permeadas por uma tensão, como se algo estivesse prestes a acontecer.

“Para mim, pintar é um estudo constante: entender o comportamento da tinta, experimentar diferentes gestos, pigmentos, acabamentos; enfim permitir que a matéria também participe da construção da imagem. Foi desse processo que começaram a surgir texturas, atmosferas e paisagens cada vez menos preocupadas em representar algo específico e mais interessadas em criar um estado, uma sensação”, reflete Vieitez.

A serpente de fogo, 2026

O curador Yuri Quevedo ressalta que, em sua prática, o artista “apresenta cada elemento como signo, inteiro em sua potência e integrado a uma ordem superior”. Nesse sentido, “não há divisão estável de planos nem hierarquia do olhar; distâncias e tamanhos são simbólicos, pois todas as coisas da criação são fruto do mesmo gesto da mão.” Quevedo identifica ainda um erotismo presente nessas paisagens, que surge como “manifestação sensual daquilo que não está presente, mas cuja insinuação o corpo pressente.”

Com títulos como Conversas com o céu, A criação da luz, A serpente de fogo, O dia mais estranho do mundo e O abismo reconheceu algo semelhante, os trabalhos deixam latente o interesse de Ramonn em desdobrar objetos celestes e terrestres a partir daquilo que evocam como materialidade, mas principalmente como imagens. Essas obras são desenvolvidas a partir de estruturas concebidas pelo próprio artista, com a madeira como suporte principal. As estruturas, como as de oratórios e biombos, são parte intrínsecas da criação.

“Os trabalhos já surgem como uma coisa só. Na exposição todas as obras foram concebidas dessa maneira. A madeira, a construção do objeto, as proporções e a pintura fazem parte de um mesmo pensamento. O suporte deixou de ser apenas um lugar onde a pintura acontece e passou a integrar a própria linguagem do trabalho. Não faz mais sentido pensar em uma sem a outra”, enfatiza o artista.

Nenhuma estrela é distante I, 2026

A partir das trocas com Yuri Quevedo, Ramonn Vieitez deu início à produção de obras de grandes dimensões, realizadas sobre alumínio, expandindo sua pesquisa que atravessa a arte medieval, manuscritos, fenômenos naturais, a arte e cultura do século XII e imagens religiosas. Na exposição, serão apresentados pela primeira vez três desses projetos que integram a série Nenhuma estrela é distante.

Para o curador, o alumínio é tratado “como artifício; sua superfície, trabalhada com aatenção de um ourives. Ao buscar na memória do próprio corpo aquilo que resta da luz, Vieitez transforma um fenômeno fugidio em objeto durável e oferece ao mundo aquilo que sua oficina sabe produzir de melhor.”

Para o artista, essa nova linha de produção é como uma espécie de pintura expandida, com o alumínio recebendo gestos, relevos, cores, matéria, refletindo a luz e participando da construção da obra. “É uma frente de pesquisa muito recente, a primeira vez que vou mostrar, e, justamente, por isso sinto que ainda existem inúmeras possibilidades para explorar.”



O céu não cabe em nenhum paraíso – Ramonn Vieitez
De 06/08/2026 a 25/09/2026
Galeria Marco Zero – Av. Domingos Ferreira, 3393, Boa Viagem, Recife
Visitação de segunda a sexta-feira, das 10h às 19h; sábado, das 10h às 17h
Entrada franca